O aplicativo que avisa se você morreu
Viver o apocalipse tem sido cansativo. A última notícia da editoria Mundo, Acabe é o recorde de downloads do aplicativo “Você Está Morto?” na China. Funciona assim: todos os dias o usuário deve avisar que está vivo, deixando assim algum robô sossegado. Caso não dê, literalmente, um sinal de vida, é acionado um sistema de emergência.
O aplicativo viralizou nas redes sociais, passou a cobrar mensalidade tamanho o sucesso e se define como uma ferramenta de apoio a pessoas que moram sozinhas ou – atenção às aspas – “têm-um-estilo-de-vida-solitário”.
Solidão agora é estilo de vida
Senti uma tentativa de glamour nessa ideia, que é uma ruim a longo prazo e agrada apenas às incorporadoras de microapartamentos e às empresas de eletrodomésticos. Quanto mais gente morando sozinha, mais rápido chegaremos à marca de uma geladeira per capita. O mesmo vale para a air fryer. Estamos mesmo encrencados.
Um dado preocupante (eu acho preocupante) dessa notícia do app que avisa se você morreu é, para usar um termo de marketing, a penetração entre o público jovem. Falando em penetração, ou da falta dela, há um ano na edição Não transam e não sonham: ser jovem está superfaturado abordou a apatia sexual que assola os mais jovens. Parece que o lepo-lepo tá com ROI negativo, por motivos sociais, culturais, psicológicos e tecnológicos.
Quem vai segurar sua mão?
Solidão, em todas as idades, mata. Não é frescura: reconhecido pela Organização Mundial da Saúde, o isolamento social é tão grave quanto as doenças crônicas que realmente matam, acelerando perdas funcionais e cognitivas em pessoas velhas. A falta de companhia e de uma rede significativa de afetos também aumenta a depressão, a ansiedade e piora a imunidade.
De tudo o que aprendi na Gerontologia Social, poucas constatações me impactaram tanto quanto a importância de vínculos sociais para uma velhice com sentido. Há estudos que comparam o fim da vida de pessoas com muitos recursos, atendidas pelos melhores médicos e hospitais, mas sozinhas; e pessoas pobres, com pouco conforto, porém cercadas de afetos construídos por toda a existência.
Quem morre melhor? Você já sabe.
Não se trata de romantizar a pobreza, por óbvio, mas não desmarcar o rolê com suas amigas e abandonar um call protocolar de trabalho para pegar seu filho na escola me parecem as atitudes mais sábias.
A pergunta a ser feita é: “quem irá segurar a minha mão?”.
Fico amiga até da tia do Yakult
Não tenho vergonha de confessar que a solidão é um dos meus maiores medos, sobretudo quando eu ficar (mais) velha e (mais) frágil. Nutrir boas relações se tornou prioridade na minha vida e foi uma decisão que puxei para agora, na faixa dos 40, sabendo que é como um jardim: anos e anos de cultivo, de investimento, de plantas que não vingam e de outras que viram árvores à prova de tempestades.
Falando nisso, estou cultivando uma batata-doce na água, que vi no TikTok, e vai virar uma selva na minha cozinha, e essa informação entra naquela cota geminiana de desviar totalmente o assunto com um dado inútil e aleatório. Detalhe: sou de Áries.
Tem gente tão sozinha no mundo que se acontecer alguma coisa ninguém irá sentir falta. Como o que aconteceu Anja, personagem do livro Nem Sinal de Asas, de Marcela Dantés, (Patuá, 2020).
Na história, ela mora sozinha, morre no apartamento e só é encontrada 5 anos depois quando as contas em débito automático param de ser pagas, em razão do esgotamento do saldo bancário. Quem sentiu sua falta foi o telemarketing. Anja ficou preservada esse tempo todo porque esqueceu o ar condicionado ligado, imagina só uma coisa dessas, cruz credo. Se tivesse o aplicativo chinês…
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Sobre mim
Sou Mariana Mello, jornalista especializada em Gerontologia (PUC-SP e Einstein) e idealizadora do Maturidades. Criei e dirijo também a Alma, estúdio de produção de conteúdo e projetos para marcas com ênfase no tema maturidade e envelhecimento.
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